sexta-feira, 4 de setembro de 2009

Identificação



Eu me diluí na alma imprecisa das coisas.
Rolei com a Terra pela órbita do infinito,
Jorrei das nuvens com a torrente das chuvas
E percorri o espaço no sopro do vento;
Marulhei na corrente inquietadora dos rios,
Penetrei a nudez milenar das montanhas;
Desci ao vácuo silencioso dos abismos;
Circulei a seiva das plantas,
Ardi no olhar das feras,
Palpitei nas asas das pombas;
Fui sublime n'alma do homem bom
E desprezível no coração do mesquinho;
Inebriei-me da alegria do venturoso;
E deslizei dolorosamente na lágrima do infeliz.

Nada encontrei mais doloroso,
Mais eloqüente,
Mais grandioso
Do que a tragédia cotidiana
Escrita em cada vida humana.


Helena Kolody
(Paraná-1912-2004)

CANTIGA OUTONAL



Outono. As árvores pensando ...
Tristezas mórbidas no mar ...
O vento passa, brando ... brando ...
E sinto medo, susto, quando
Escuto o vento assim passar ...

Outono. Eu tenho a alma coberta
De folhas mortas, em que o luar
Chora, alta noite, na deserta
Quietude triste da hora incerta
Que cai do tempo, devagar ...

Outono. E quando o vento agita,
Agita os galhos negros, no ar,
Minha alma sofre e põe-se aflita,
Na inconsolável, na infinita
Pena de ter de se esfolhar ...


Cecília Meireles
In Nunca Mais e Poema dos Poemas

domingo, 30 de agosto de 2009

'Plenitude'


(Fotografia:Simone Albuquerque)


A pedra, o vento, a luz alteada,
o salso mar eterno, o grito
do mergulhão, sob o infinito azul:


— Deus não me deve nada.


Helio Pellegrino
(Minas Gerais-1924-1988)

sábado, 29 de agosto de 2009

Jacob Pinheiro Goldberg



A pausa.
Que não espera
e muito menos,
busca.

Descanso, embalo
dum fim que se aproxima
a hora mutante,
aquele minuto em que
o mundo cessa,
e tudo se esclarece ou,
às vezes, para sempre,
escurece.


Jacob Pinheiro Goldberg
(Minas Gerais)

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

VALSA DO ADEUS



Tudo é partida de navio, velas
ao vento, coisas desancoradas
que se desgarram. Este copo, esta pedra
que pronuncio não são palavras, nem
versos de amor, nem o sopro
vivificante do espírito. São barcos
arrastados pelo tempo, cascas
de fruta na enxurrada, lenços
de adeus, enquanto o vapor se afasta,
e de longe ilumina essa ausência que somos.


Hélio Pelllegrino-
in: 'Minérios Domados'

Mar Alto



Esta água é todas as águas,
sem porto, nome ou naufrágio.
Rendada de espuma ao vento,
sem dor nem contentamento.

Esta água — lugar nenhum —
é perdição sem loucura.
Nela se dissolvem mágoa,
memória, tempo, aventura.

Sem lei nem rei, sem fronteiras,
além de verbo e silêncio,
esta é a pátria procurada:
incêndio de tudo — nada.

Hélio Pellegrino
(Minas Gerais 1924-1988)

Jacob Pinheiro Goldberg

Teresa Balté

terça-feira, 25 de agosto de 2009

XXV



Lightly come or lightly go:

Though thy heart presage thee woe,
Vales and many a wasted sun,

Oread let thy laughter run,
Till the irreverent mountain air
Ripple all thy flying hair.
Lightly, lightly -- - ever so:

Clouds that wrap the vales below
At the hour of evenstar

Lowliest attendants are;
Love and laughter song-confessed
When the heart is heaviest.

James Joyce
in: Chamber Music

XXXII



Rain has fallen all the day.

O come among the laden trees:
The leaves lie thick upon the way

Of memories.
Staying a little by the way

Of memories shall we depart.
Come, my beloved, where I may

Speak to your heart.


James Joyce
in: Chamber Music

sábado, 22 de agosto de 2009

IGNORANT SKY



The well-built house has fallen to the ground.
There is no God among us anymore.
Our bay leaves wither, our prophets are a bore
And not a single new spring has been found.
So you made a cockpit of your bedroom
And opening electronic windows up
You scan the universe for kicks, and zoom
A distant face to get a fake close up;
And yet when everything's quite like a lie
And only what is terrible seems true
You find within your heart a strange devotion
Toward that star against an ignorant sky:
You know its shimmering artificial blue
Has been delivered by the deepest ocean.

Antônio Cícero
(Brasil-Rio de Janeiro 1.945)

Sophia de Mello Bryner Andresen



Formatação da amiga Leila Derze, um dos sites mais lindos que conheço.

terça-feira, 18 de agosto de 2009

VI



In my garden,
the winds have beaten
the ripe lilies;
in my garden, the salt
has wilted the first flakes
of young narcissus,
and the lesser hyacinth
and the salt has crept
under the leaves of the white hyacinth.

In my garden
even the wind-flowers lie fiat,
broken by the wind at last.


Hilda Doolittle
(EUA, 1886-1961)

Desert



Where there’s a river
that tastes of direction.

Where there’s on orchard,
that says survival.

Where there’s a desert,
that changes everything,

as if hadn’t wanted
to fill only her own need.


Patricia Hooper
(Birmingham, Michigan-EUA-1941)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

LINGUAGEM


(Photo by Philippe Sainte-Laudy)


O sol nos fala com luz; com cor
e com perfume nos fala a flor;
com nuvens, chuva e neve nos fala
o ar. Há no sacrário do mundo
um incontido afã de romper
com a mudez das coisas e expor
em gesto e som, em palavra e cor,
todo o mistério que envolve o ser.
A clara fonte das artes flui
para a palavra, a revelação;
para o mental flui o mundo, e aclara
em lábio humano um saber eterno.
Pela linguagem a vida anseia:
em verbo, cifra, cor, linha som,
conjura-se a nossa aspiração
e um alto trono aos sentidos ergue.
Como na flor o vermelho e o azul,
na palavra do poeta volta-se
para dentro a obra de criação,
sempre a iniciar-se e e acabar jamais.
Onde palavra e som se combinam,
e soa o canto, a arte se revela,
e cada cântico e cada livro,
cada imagem, é uma descoberta
- uma milésima tentativa
de cumprimento da vida una
A penetrar nessa vida una
vos chama a música, a poesia:
para entender a criação vária,
já e bastante um olhar no espelho.
O que confuso antes´parecia,
é claro e simples na poesia:
a nuvem chove, a flor ri, o mudo
fala - o mundo faz sentido em tudo.

Hermann Hesse
In Andares