sexta-feira, 11 de dezembro de 2009



Ao ver da ave austera e escura a soteníssima figura,
desperta em mim um leve riso, a distrair-me de meus
ais.
“Sem crista embora, ó Corvo antigo e singular” - então lhe
digo -
"não tens pavor; fala comigo, alma da noite, espectro
torvo, qual é o teu nome, ó nobre Corvo, o nome teu
[o inferno torvo!"

E o Corvo disse: "Nunca mais".

Maravilhou-me que falasse uma ave rude dessa classe,
misteriosa esfinge negra, a retorquir-me em termos tais,
Pois nunca soube de vivente algum, outrora ou no
presente,
que igual surpresa experimente: a de encontrar, em sua
porta,
uma ave (ou fera, pouco importa) empoleirada, em sua porta,
e que se chama "Nunca mais".



Edgar Allan Poe
Excerto do ensaio 'A filosofia da Composição'
Poemas e Ensaios. (Trad. Oscar Mendes e Milton Amado).
São Paulo: Globo, 1999. 3. ed. revista.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

'MANHÃ NO MEU JARDIM'



Ha festas nas campo, ânsias que crescem
Sob a cortina verde da ramagem,
Enquanto as samambaias estremecem
Aos beijos brandos da sublime aragem!

Uns retalhos de sol sobre a folhagem
Tremeluzindo, das alturas, descem
E no fundo azulado da paisagem,
De várias cores, um tapete tecem . . .

Ha mensagens de olências nos canteiros !
Chovem pétalas brancas, perfumadas,
Da fronde angelical dos jasmineiros . . .

E a manhã, como uma águia de marfim ,
Desce dos chapadões das madrugadas
E abre as asas de luz no meu jardim!


Miguel Jansen Filho
(Paraíba 1925/1994)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2009

The Snow Man



One must have a mind of winter
To regard the frost and the boughs
Of the pine-trees crusted with snow;

And have been cold a long time
To behold the junipers shagged with ice,
The spruces rough in the distant glitter

Of the January sun; and not to think
Of any misery in the sound of the wind,
In the sound of a few leaves,

Which is the sound of the land
Full of the same wind
That is blowing in the same bare place

For the listener, who listens in the snow,
And, nothing himself, beholds
Nothing that is not there and the nothing that is.


Wallace Stevens
(1879-1955- EUA)

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

SEGMENTOS



E o homem seguiu entre guizos falsos.
Trazia no rosto uma sofreguidão de charcos.


Era noite
e os fantasmas enlouquecidos não o deixavam seguir.


Assim
andarilho de madrugadas
homem de silêncios fartos
ele se enfatizou.


Riscou de seu rosto a mascara da vida.


Continuava só
e só, continuava em sua busca viscosa.


Já não era mais ele quem fremia
na porta dos bares vazios.


Era a nostalgia de seu espectro
que buscava carnavais de sorrisos.


Alvina Nunes Tzovenos
In: Palavras ao Tempo

SONETOS DA AUSÊNCIA



XXIV


A mão que disse adeus era um veleiro
no mar da solidão. O amor perdido
era um luar humilde e companheiro
do coração mais que do céu nascido.


Dantes, a paz não fora o meu roteiro.
Sonhava, apenas. Nem jamais, ferido
pelo céu, pelo mar, vivera inteiro
o meu reino de luz, já proibido.


Vi então que a alegria era um soluço
e o coração o mar e o céu cansados,
o coração há tanto adormecido.


E hoje no adeus, lembrando, me debruço,
no adeus que é o grito dos desesperados
e o olhar febril de algum enlouquecido.


Alphonsus de Guimaraens Filho
In: Antologia Poética

sábado, 28 de novembro de 2009

Viajam as palavras



Passageiros, formo como que um diagrama
entre o céu tremido e o jornal que a trepidação do trem sacode
em minhas mãos.

A paisagem me vem oferecer seus buquês roxos e cor de ouro
mas foge, arrependida.

Vistos, de longe, de passagem,
todos os rostos são amigos, são iguais.

Só que depois, em minha memória, que estará rolando ainda esta paisagem
impressa em mim, à minha saudade
como um quadro à parede.

O possível desastre
faz cantar, como uma carretilha ao meu ouvido,
o pássaro do adeus.

O trem de ferro desloca o sentido das coisas.

Viajam as palavras.



Cassiano Ricardo
Em "O sangue das horas"

ESTA É A GRAÇA



Esta é a graça dos pássaros:
cantam enquanto esperam.
E nem ao menos sabem o que esperam.


Será porventura a morte, o amor?
Talvez a noite com nova estrela,
a pátina de ouro do tempo,
alguma cousa de precário
assim como para o soldado a paz?


Com grave mistério de reposteiros
um augúrio dimana, incessante,
do marulho das fontes sob pedras,
do bulício das samambaias no horto.


No ladrido dos cães à vista da lua,
acima do desejo e da fome,
pervaga um longo desespero
em busca de tangente inefável.


O mesmo silencio da madrugada
prenuncia, sem duvida, um evento
que já não é o grito da aurora
ao macular de sangue a túnica.


E minha voz perdura neste concerto
com a vibração e o temor de um violino
pronto a estalar em holocausto
as próprias cordas demasiado tensas.



Henriqueta Lisboa
In:'A Flor da Morte' (1945-1949)

terça-feira, 24 de novembro de 2009

BUENOS AIRES



Das longas avenidas que inventamos
sem nunca percorrer
senão com a boca suja de palavras
alguma ficará
para cenário
quando
numa noite
- mas não nesta -
um de nós deixar o outro
para sempre.

Ana Martins Marques
(Minas Gerais-BR)

domingo, 15 de novembro de 2009

AO SONO



Rebanho de ovelhas que lentamente passa
Uma de cada vez, o som da chuva e o farfalhar
Das folhas ao vento, abelhas, cascatas e o mar,
Prados, lenços d’água e o céu que esvoaça;
Sobre eles divaguei, um por um e ainda estou
Desperto! Logo os pássaros cantando
Nas árvores do pomar estarei escutando,
E o primeiro trinado do cuco que lá pousou.
Ontem e nas duas outras noites foi assim
Sono! Com todos os ardis não te pude receber:
Poupes-me nesta noite, vem a mim
Sem ti, que seria do encanto do alvorecer?
Vem, barreira entre o dia e a noite, enfim,
Pai do fresco pensar e do saudável viver!


William Wordsworth
in O olho Imóvel Pela Força da Harmonia

sábado, 14 de novembro de 2009

Eu sou



Eu sou, mas o que eu sou quem cuida ou sabe?
Em meus amigos um lembrar perdido.
Gastar as minhas mágoas a mim cabe -
erguem-se e passam num revoar esquecido,
sombras de amor que a própria ânsia esmaga -
mas sou, e vivo - como névoa vaga


lançada ao nada de uma vácua lida,
ao vivo mar dos sonhos acordados,
onde não há qualquer senso da vida,
mas o naufrágio só dos bens passados.
Até os mais caros, meu amor mais fundo,
estranhos me são, ou mais que todo o mundo.


Anseio terras que ninguém pisou,
onde mulher nunca sorriu nem chora,
e onde me unir ao Deus que me criou,
para dormir como na infância outrora -
sem que nenhum cuidado seja meu:
erva por baixo, e acima o curvo céu.


John Clare
(in «Poesia de 26 Séculos»
Antologia, tradução, prefáio
e notas de Jorge de Sena,
Edições ASA, 2001)


I am

I am! yet what I am who cares, or knows?
My friends forsake me like a memory lost.
I am the self-consumer of my woes;
They rise and vanish, an oblivious host,
Shadows of life, whose very soul is lost.
And yet I am—I live—though I am toss’d

Into the nothingness of scorn and noise,
Into the living sea of waking dream,
Where there is neither sense of life, nor joys,
But the huge shipwreck of my own esteem
And all that’s dear. Even those I loved the best
Are strange—nay, they are stranger than the rest.

I long for scenes where man has never trod—
For scenes where woman never smiled or wept—
There to abide with my Creator, God,
And sleep as I in childhood sweetly slept,
Full of high thoughts, unborn. So let me lie,—
The grass below; above, the vaulted sky.


John Clare

Early Nightingale



When first we hear the shy-come nightingales,
They seem to mutter o’er their songs in fear,
And, climb we e’er so soft the spinney rails,
All stops as if no bird was anywhere.
The kindled bushes with the young leaves thin
Let curious eyes to search a long way in,
Until impatience cannot see or hear
The hidden music; gets but little way
Upon the path - when up the songs begin,
Full loud a moment and then low again.
But when a day or two confirms her stay
Boldly she sings and loud for half the day;
And soon the village brings the woodman’s tale
Of having heard the new-come nightingale.


John Clare
(1793 - 1864 / Northamptonshire / England)

'Is there another world for this frail dust'



Is there another world for this frail dust
To warm with life and be itself again?
Something about me daily speaks there must,
And why should instinct nourish hopes in vain?
'Tis nature's prophesy that such will be,
And everything seems struggling to explain
The close sealed volume of its mystery.
Time wandering onward keeps its usual pace
As seeming anxious of eternity,
To meet that calm and find a resting place.
E'en the small violet feels a future power
And waits each year renewing blooms to bring,
And surely man is no inferior flower
To die unworthy of a second spring?


John Clare
Poems selected from Poems by John Clare, ed. Arthur Symons (London: Henry Frowe, 1908) and from The Rural Muse; Poems by John Clare, (London: Whittaker & co., 1835).

What is Life?



And what is Life? An hour-glass on the run,
A mist retreating from the morning sun,
A busy, bustling, still-repeated dream.
Its length? A minute's pause, a moment's thought.
And Happiness? A bubble on the stream,
That in the act of seizing shrinks to nought.

And what is Hope? The puffing gale of morn,
That of its charms divests the dewy lawn,
And robs each flow'ret of its gem -and dies;
A cobweb, hiding disappointment's thorn,
Which stings more keenly through the thin disguise.

And what is Death? Is still the cause unfound?
That dark mysterious name of horrid sound?
A long and lingering sleep the weary crave.
And Peace? Where can its happiness abound?
Nowhere at all, save heaven and the grave.

Then what is Life? When stripped of its disguise,
A thing to be desired it cannot be;
Since everything that meets our foolish eyes
Gives proof sufficient of its vanity.
'Tis but a trial all must undergo,
To teach unthankful mortals how to prize
That happiness vain man's denied to know,
Until he's called to claim it in the skies.


John Clare
(1793 - 1864 / Northamptonshire / England)

domingo, 8 de novembro de 2009

Serenidade



Há muito tempo, Vida, prometeste
trazer ao meu caminho uma doida alegria
feita de espírito e de chama,
uma alegria transbordante, assim como esse
alvo clarão que se irradia
da orla festiva das enseadas,
e entre reflexos de ouro se derrama
do cântaro das madrugadas.

Eu, que nasci para um destino manso
de coisas suaves, silenciosas, imprecisas,
e que fico tão bem neste obscuro remanso
onde apenas se infiltra um perfume de brisas,
imagino a tremer: que seria de mim
se essa alegria
esplêndida, algum dia,
houvesse surpreendido a minha inexperiência!…

A vida me iludiu, mas foi sábia na essência.

Minha alegria deveria ser assim:
Pequenina doçura delicada,
gota de orvalho em pétala de flor,
sempre serena lâmpada velada
que me diluísse as brumas do interior.

Sempre serena lâmpada velada,
símbolo do meu sonho predileto…
Se amanhã tu penderes do meu teto
aureolando minha última ilusão,
- para que eu viva em teu amor e em tua paz,
deixa um rastro de sombra pelo chão…
É nesta sombra que hei de me esconder
quando sentir a falta que me faz
a outra alegria que não pude ter!


*Henriqueta Lisboa
in: Velário (1936)
*(* Lambari, MG. – 15 de Julho de 1904.
+ Belo Horizonte, MG. – 9 de Outubro de 1985.)

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

AS LINHAS DA MÃO



3


Mas fui feliz.
Puseram a mão nesta mão.
Não me apagaram o choro da orfandade,
mas fui feliz.


Nada pedi
- o som da bica ouço,
o mesmo que irá comigo à morte
e esteve sempre no meu dia antigo,
e sabe o que eu queria –
mas fui feliz.


Fui pranto de outros olhos.
Fui feliz.


Senti o afago
entre o peito e a pele da camisa.
Fui feliz.



Alberto da Costa e Silva
In: As Linhas da Mão (1978)